andreNa segunda parte da entrevista com o Dr. André Marques Mansano, ele fala sobre o presente e o futuro da Medicina da dor e aponta alguns aspectos importantes para o paciente com dor saber em relação ao seu tratamento. Se você ainda não leu a primeira parte da conversa, clique no link: Entrevista Dr. André - primeira parte.

Blog Singular - Na sua prática profissional, quais serão as mudanças no próximo ano, pensando na sua atuação não mais como residente, mas como sócio da clínica e médico de dor certificado com o FIPP?

Dr. André - Na verdade, como o fellowship é um processo diferente de uma residência tradicional e como eu já tinha mais de dez anos de formado, eu já atendia meus pacientes. A maior diferença é que durante este período de dois anos, eu acompanhei diariamente os atendimentos do Dr. Charles e do Dr. Fabrício. Aprendi muito com a prática deles. Considero que eu encerrei o período de Fellowship, mas não acabou o aprendizado com eles. Esta é uma grande vantagem de trabalhar em uma clínica com vários profissionais. Se você trabalha sozinho em um consultório, não há ninguém para discutir os casos ou para questionar condutas. Vou continuar sempre aprendendo com eles e eles comigo.

Como você fez a escolha de estudar Medicina?

Acho que nossas escolhas profissionais acontecem muito cedo. Não vejo na minha escolha inicial algo muito fundamentado. Com um pouco de sorte, com a cabeça que eu tenho, se tivesse que escolher novamente, teria feito exatamente a mesma escolha. Desde o começo da faculdade, me identifiquei muito com a Medicina. Concordo com Malcolm Gladwell, um jornalista britânico, quando ele diz que todo grande trabalho tem três características; autonomia, complexidade e uma relação clara entre esforço e recompensa (melhora do paciente). A medicina, em especial a medicina da dor, me proporciona isso.

Qual é a sua opinião sobre a Medicina da Dor no contexto da Medicina atual?

A Medicina da Dor tem sido valorizada apenas muito recentemente e ela tem algumas particularidades, principalmente em relação à dor crônica. Primeiro, porque a dor crônica não responde e não é explicada totalmente pelo modelo cartesiano. Há muitas coisas desconhecidas, pois a dor envolve a função cerebral. É muito difícil definir e explicar a dor de uma maneira linear. Outra grande diferença do trabalho com dor crônica se refere à Medicina baseada em evidências. Para fazer um estudo de Cardiologia, por exemplo, você pega um grupo de pacientes, testa duas drogas e verifica os resultados quanto a algumas medidas objetivas. Nos estudos sobre dor crônica, isto é muito mais difícil, pois o desfecho é subjetivo, é o relato do paciente se ele melhorou ou não. Com isso, os tratamentos atuais de dor são mais pautados em séries de casos do que em estudos em larga escala. Há uma frase de um autor que diz que, apesar de precisarmos de mais evidências para os tratamentos, muitas vezes o paciente não pode esperar. Você tem que tentar resolver o problema, sempre de forma ética, moral e virtuosa, fazendo o que acreditamos que terá a maior probabilidade de melhorar o quadro.

Como você vê o futuro da Medicina da Dor? Em que ponto ela deve evoluir nos próximos anos?

A Medicina da Dor evoluiu muito nos últimos 5 anos e ainda vai evoluir mais, tanto quanto ao diagnóstico quanto no plano terapêutico. Cada vez mais técnicas novas têm surgido. Por exemplo, em relação a doenças degenerativas, que não têm cura, eu considero que hoje em dia, estamos passando uma fase de denervação, em que denervamos estruturas que causam dor. Já começamos uma nova fase que eu chamo de estimuladora, em que estimulamos regiões que vão inibir a dor. Em um futuro próximo, iremos para uma fase regenerativa, em que vamos conseguir reverter alguns processos degenerativos, como artrose e degenerações de disco intervertebral, por exemplo.

O que você acha importante para os pacientes com dor crônica saberem em relação ao tratamento?

Eu acho que a dor crônica deve ter um tratamento crônico. A primeira coisa importante é o paciente ter um dado de realidade: a dor crônica não é fácil de ser tratada, mas muitas vezes pode ser aliviada. Por exemplo, se o paciente tem uma dor na coluna secundária a uma degeneração, atualmente não podemos esperar que a causa seja curada, mas podemos esperar que a dor seja melhorada, eventualmente até eliminada se o paciente seguir o tratamento a longo prazo, preferencialmente multidisciplinar. O que vemos acontecer com frequência é, após o sucesso de um procedimento intervencionista, o paciente ter uma excelente resposta e acabar negligenciando outras facetas do tratamento, como fisioterapia e psicoterapia, porque a dor melhorou. A questão é que estas outras facetas vão dar a sustentação para que o tratamento tenha um resultado mais a longo prazo. Na dor, eu vejo que os pacientes que seguem o tratamento com mais rigor têm muito mais chances de melhorar.